quinta-feira, 30 de junho de 2016

POT IN RIO É DA MACONHA

O Pot in Rio não foi só flores: no início do evento, a polícia quase acabou com tudo antes mesmo de começar. Crime de apologia, exigências administrativas ou só mesmo o velho preconceito contra a maconha? Veja tudo o que rolou nas palavras do advogado e ativista André Barros. Às 10 horas da manhã do último sábado, fui acordado pelo grande Mandacaru já bem preocupado. O idealizador e grande coordenador do Pot in Rio tinha recebido a informação de que o Coronel do Batalhão da Polícia Militar daquela região havia dito que o evento não iria acontecer, porque se tratava de crime de apologia. Aquela incrível feira livre sobre a maconha, infelizmente, ainda sem a presença da erva, é organizada no mesmo dia. Quando a estrutura estava sendo montada com barracas, bebidas, comidas e gelo, chegou a polícia querendo impedir a realização do evento. Mandaca disse para continuar a armação do Pot e começamos então a travar uma queda de braço. Enquanto o grande coordenador tentava mostrar à polícia que não era nada daquilo que ela estava pensando, mostrando a grandiosidade do evento, com pessoas chegando de todas as partes do Brasil e do mundo, eu falava ao mesmo tempo com o Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, com o Delegado da 5ª Delegacia Policial e diretamente com o Batalhão, tentando em vão conversar com quem deu a ordem. Planejava chegar ao Pot in Rio por volta de 18 horas, pois havia um churrasco do BotaFogo. Lá, deixei minha contribuição financeira e quando estava degustando os primeiros pedaços de carne, perto das 4:20 da tarde, recebi a ligação do Mandaca, já meio desesperado, porque estava sozinho e poderia ser preso por apologia ao crime. Peguei um taxi, com Dona Marta e um grande amigo da Califórnia. Chegando ao local, vi centenas de pessoas querendo entrar no evento sendo impedidas pela polícia na porta. Falei com a autoridade policial que o Pot in Rio estava amparado por duas decisões do Supremo Tribunal Federal: a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF -187) e a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4274). Disse que o STF havia decidido que nenhuma autoridade do país poderia interpretar que a Marcha da Maconha praticava crime de apologia e que isso valia também para o Pot in Rio. Um evento que defendia também a mudança de uma lei e estava amparado pela livre manifestação de pensamento e de expressão da atividade intelectual, artística, científica, independente de censura ou licença, e que ninguém pode ser privado de direitos por convicção política. O policial então disse que o evento não estava sendo impedido por apologia ao crime e que ninguém seria preso por isso. Mas que o impedimento era por questões de exigências administrativas para realização do evento, inclusive para a segurança de seus participantes. Perguntei se outros acontecimentos no mesmo local já haviam sido inviabilizados pelo mesmo motivo. Depois de muito disse-me-disse, ficou claro que a vedação era em razão do tema da maconha. Franqueamos a entrada e a polícia transitou pela feira da maconha e viu que não havia venda e consumo nem da planta, nem de semente. Conversamos urbanamente com os policiais sem qualquer altercação. Conseguimos estabelecer um bom diálogo. Compreendemos todo o preconceito e discriminação que carregam muitos policiais. Nesse ínterim, a autoridade, que estava ali naquele momento, deve ter entrado em contato com seus superiores. Chegou um novo capitão na cena, mais compreensivo, que dialogou e liberou o evento. Perceberam, até porque alertamos, que impedir o Pot in Rio poderia ser interpretado como crime de abuso de autoridade, pois duas decisões da Suprema Corte seriam descumpridas, e que poderiam até ser responsabilizados civil e administrativamente pelos prejuízos causados aquele grande evento, também comercial. Meu amigo da Califórnia ficou entusiasmado com nossa luta e entendeu bem a grandeza e dificuldade dela em nosso capitalismo escravocrata. Com final feliz, o Pot in Rio 4 entrou para a história da luta pela legalização da maconha no Brasil. Fonte: Smoke Buddies - Foto Phill Whizzman ANDRÉ BARROS, advogado da Marcha da Maconha, ativista dos Direitos Humanos, membro da Comissão de Direito Penal do Instituto dos Advogados Brasileiros e pré-candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo PSOL.

Lançamento Pré Candidatura ANDRÉ BARROS

quarta-feira, 8 de maio de 2013

CARETA NA MARCHA DA MACONHA DE 2013

Este ano podemos descriminalizar o consumo da maconha e, consequentemente, maconheiro não será mais criminoso no Brasil. O Supremo Tribunal Federal considerou, em Plenário Virtual, que o caso de um consumidor que teria 3 gramas de maconha é de repercussão geral e admitiu o Recurso Extraordinário 655659. No RE, a Defensoria Pública de São Paulo levanta a tese de que o crime de consumo de drogas tornadas ilícitas é inconstitucional, porque fere os princípios da ofensividade,da privacidade e da intimidade. Mas o processo precisa ser colocado em pauta para que o STF dê provimento ao Recurso Extraordinário. Aí é que entra a importância das Marchas da Maconha. Quanto maior o número de pessoas e Marchas por todo o país, mais forte ficará nossa bandeira libertária da descriminalização do uso da maconha. Esse é o ponto que está em questão agora, essa é a nossa luta material e concreta. Tudo é datado e contextualizado, de maneira que, neste momento, a questão terá um enorme significado e será uma grande vitória da Marcha da Maconha. Vamos evitar provocações, já chegar tranquilão e ficar careta na Marcha da Maconha. Esses movimentos sofrem sempre infiltrações e, muitas vezes, alguém que acende um baseado no meio da Marcha da Maconha, como ato de rebeldia, pode na realidade ser infiltrado para criar um motivo para a repressão. Ninguém pertencente às organizações quell fuma maconha nas Marchas, porque todos sabem que a maior rebeldia e o mais importante naquele momento é mostrar a força do pensamento de uma ideia, expressar de maneira coletiva esse pensamento, tomando todas as precauções para não estragarem nossa festa. Todos nós somos responsáveis pelas Marchas e, se alguém estiver dando bobeira do nosso lado, temos o dever de alertar, pois nosso objetivo comum é passar para o Brasil a paz, tranquilidade, força de nossa luta e a consciência de que o maconheiro não é criminoso. ANDRÉ BARROS, advogado da Marcha da Maconha

LEVA UM NA MARCHA DA MACONHA/RJ – 2013

Ano passado, em centenas de cartazes, pedíamos a liberdade de um Amigo. Justiça foi feita com a Sentença de absolvição transitada em julgado. Este ano, leve um amigo à Marcha da Maconha pois, assim, vamos passar de 10 mil participantes e fazer a maior manifestação pela legalização da erva da paz do Brasil. Faltam poucos dias e a hora é de convocação geral. Pensar, expressar esse pensamento e, ainda por cima, de forma coletiva, nas ruas, é o mais pleno exercício da cidadania, é a democracia direta em prática e, como ensinou Marx, “a prática é o único critério da verdade”. De nada adianta falar, ter ideias brilhantes, se estas não forem colocadas em prática. O mais vergonhoso é fumar maconha e não ir à Marcha. Muitos ainda apoiam essas posições proibicionistas para não serem "descobertos", o que não passa de dar tiro no pé e alimentar toda a falsidade. Estamos na Era do fim da hipocrisia. Mas os hipócritas reagem e provocam, colocando na presidência da comissão quem ataca os direitos humanos de primeira geração. Viva o casamento gay, a nudez da pedofilia religiosa e a legalização da maconha! Os direitos civis, políticos e culturais à intimidade, à privacidade e à diversidade são tão importantes quanto os sociais e econômicos, como o bolsa família. Aliás, a incoerência é irmã da hipocrisia, pois, como podem atacar o bolsa família e calar diante do direito de herança e das bolsas de estudo no país e no exterior? Nossa Marcha da Maconha está inserida nas Marchas que vão derrubar os muros das mentiras. Não tenha vergonha, tenha atitude, leve um amigo e uma amiga à Marcha da Maconha. Não esqueça que a concentração é às 14 horas, em frente ao Coqueirão, Praia de Ipanema, próximo ao posto 9. Vamos sair às 4:20 da tarde, horário internacional, em frente ao prédio número 420 da avenida Vieira Souto, situado entre as ruas Maria Quitéria e Joana Angélica, no quarteirão batizado de "Maria Joana". Vamos levar um amigo e uma amiga, galera, e fazer uma grande Marcha da Maconha em 2013 no Rio de Janeiro! Um abraço bem apertado, ANDRÉ BARROS, advogado da Marcha da Maconha RJ, 24/04/2013

quarta-feira, 24 de abril de 2013

4:20 HORAS EM FRENTE AO 420 Por Dr. André Barros Quando pensávamos que avançava o processo de legalização da maconha no Brasil, já que Cortes Constitucionais de países vizinhos da América do Sul já haviam declarado a inconstitucionalidade do crime de consumo de drogas... No momento em que o Uruguai apresentava ao mundo a proposta de monopólio da venda de maconha pelo Estado, com a finalidade de reduzir os danos do crack e diminuir o poder do tráfico... Agora que mais de 18 Estados e o Distrito de Columbia, onde fica a capital Washington, EUA, legalizaram, em plebiscito, o uso medicinal, e alguns inclusive para fins recreativos... Em meio a uma crise financeira mundial, em que as plantações de maconha vêm se multiplicando nos Estados Unidos da América... Tudo caminhava bem, quando fomos surpreendidos por 344 deputados federais que votaram a favor do regime de urgência do monstruoso projeto de Lei 7663/2010. A proposta ressuscita o SNI, criando o Sistema Nacional de Informação sobre Drogas, transformando professores em delatores dos seus alunos, sob pena da prática de crime de responsabilidade. Cria tribunais de exceção nas escolas para apurar ações e omissões, sem definir condutas. O Juiz terá que designar na sentença um responsável para acompanhar toda pessoa flagrada com maconha, proibir a frequência a determinados lugares ou a imposição de cumprimento de horário. Sem falar nas internações compulsórias, chamadas de "involuntárias", a pedido de um familiar e decidida por apenas um médico, que não precisa ser psiquiatra, nem perito. O projeto quer, ainda, aumentar a pena mínima de 5 para 8 anos no caso de tráfico, mostrando a sanha punitiva e inconsequente do projeto, já que as cadeias já estão superlotadas de jovens, negros e pobres, condenados por tráfico de drogas. Estamos sob ameaça desse terrível retrocesso histórico. Mas podemos avançar ainda mais com o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do Recurso Extraordinário 635659, quando poderá ser descriminalizado o consumo de maconha no Brasil. O momento é delicado e a participação de todos é necessária. Por isso, no dia 11 de maio de 2013, compareça à Marcha da Maconha. A concentração começa às 14 horas, mas a Marcha vai sair no horário internacional da legalização da maconha: 4:20 horas da tarde, em frente ao edifício número 420 da avenida Vieira Souto. ANDRÉ BARROS, advogado da Marcha da Maconha Curta André Barros no Facebook: http://www.facebook.com/advogadoandrebarros
Pediu sementes de site gringo e foi intimado pela PF, o que fazer? 24 de April de 2013 // Postado por: growroom Muitos cultivadores e indivíduos que pretendem cultivar sua Cannabis pedem suas sementes de sites no exterior pagando com cartão de crédito e recebendo através dos correios. Contudo, ao chegar no Brasil, tais encomendas passam por fiscalização dos correios e da ANVISA, e quando as sementes são descobertas são encaminhadas para Polícia Federal. Assim, muitos cultivadores e pretensos cultivadores têm sido intimados pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos sobre encomendas de sementes vindas do exterior, e ficam sem saber como proceder. Se você é um dessas pessoas não deixe de comparecer ou agendar um dia para o depoimento. No dia, vá acompanhado de um advogado de sua confiança, se ele não conhecer a matéria busque apoio dos consultores jurídicos do Growroom para dar subsídios a ele quanto à questão juridica do cultivo de cannabis. Não fique nervoso, não seja ríspido com o policial, apenas responda as perguntas que ele fizer, ou caso não se sinta confortável para responder se reserve ao direito de ficar calado e só falar diante de um juiz. Ao se expressar deixe bem claro que aquelas sementes, bem como as flores esperadas após o cultivo se destinariam somente para seu consumo, sem qualquer forma de circulação para terceiros. Não se esqueça que as sementes de Cannabis não possuem os principios ativos proscritos pela lei brasileira, ou seja não contem THC e/ou CBD, assim existem vários argumentos para defesa. A situação de se enquadrado por importar sementes de Cannabis já foi apreciada por diversos Tribunais no Brasil e existem diversas decisões falando que o pedido de sementes ou é fato atípico (não é crime) por não conter as substâncias proibidas ou é ato preparatório para o crime, o qual também não é punido no ordenamento brasileiro. Como exemplo temos os seguintes julgados: “Ementa: EMBARGOS INFRINGENTES. CRIME DE ENTORPECENTES (ARTIGOS 12- § 1° -I, DA LEI N° 6.368/76). SEMENTES DE MACONHA. A guarda ou posse de semente de maconha não configura o delito do artigo 12 – § 1º – I, da lei nº 6.368/76. A semente de maconha não é matéria-prima, pois esta seria a substância que deve ser submetida a trabalho industrial antes de ser tornada própria ao consumo. Não se extrai maconha da semente, mas da planta germinada da semente, se esta sofrer transformação por obra da natureza e não da indústria humana. EMBARGOS ACOLHIDOS, POR MAIORIA.” (Embargos Infringentes Nº 70019927193, Primeiro Grupo de Câmaras Criminais, Tribunal de Justiça do RS, Relator: José Antônio Cidade Pitrez, Julgado em 03/08/2007) “Ementa: “HABEAS CORPUS”. DECRETACAO DA PRISAO PREVENTIVA DO PACIENTE, POR TRAFICO DE ENTORPECENTES, PORQUE APREENDIDAS EM SEU PODER SEMENTES DE MACONHA. IMPETRACAO DE “HABEAS CORPUS”, VISANDO A SUA SOLTURA. SEMENTES DE MACONHA NAO CONSTITUEM OBJETO MATERIAL DO CRIME DO ARTIGO 12 DA LT. CONCESSAO DA ORDEM: DETERMINACAO DA SOLTURA DO PACIENTE. UNANIME.” (4 FLS) (Habeas Corpus Nº 70001650662, Primeira Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Nilo Wolff, Julgado em 25/10/2000) “PENAL E PROCESSO PENAL. ART.12, CAPUT, (PRIMEIRA FIGURA), C/C 18, INCISO I (PRIMEIRA FIGURA), DA LEI 6.368/76, C/C ART. 14, II, DO CP. ART. 43, I, DO CPP. IMPORTAÇÃO DE SEMENTES DE CANNABIS SATIVA (MACONHA), POR INTERMÉDIO DE SÍTIO NA REDE MUNDIAL DE COMPUTADORES (INTERNET). REJEIÇÃO DA DENÚNCIA. ATIPICIDADE DA CONDUTA. ATO PREPARATÓRIO. I – A conduta atribuída ao denunciado foi, de fato, mero ato preparatório não punível, a teor do que dispõe o art. 31 do CP. Tampouco há que se falar em tentativa (art. 14, II, do CP), uma vez que não se iniciou a fase executória, pressuposto para sua ocorrência. II – Na hipótese, não há como se concluir pela traficância internacional atribuída ao denunciado. A rigor, verifica-se a tentativa de importação de sementes de substância proscrita, que, apesar da confissão do acusado, em fase policial, apenas se presume que seriam plantadas para posterior consumo ou revenda do produto do cultivo no mercado interno. III – Presunção desacompanhada de fato concreto torna duvidosa a tipicidade da conduta e, por conseguinte, incabível o recebimento da denúncia. IV – Conduta que não se abona; contudo, é atípica, porque meramente preparatória. V – Recurso desprovido.” “APELAÇÃO CRIMINAL. PORTE DE SEMENTES DE MACONHA. CONDENAÇÃO POR TRÁFICO DE DROGAS. A posse de sementes de maconha é conduta atípica, vez que à luz de entendimento doutrinário e jurisprudencial, não contém o princípio ativo do THC, gerador da dependência e, por conseqüência, não tem qualquer relevo na esfera penal. Recurso provido para absolver o réu.” “Apelação criminal. Tráfico. Denúncia inepta. Cumprimento dos requisitos legais. Posse de sementes. Atipicidade. Absolvição. Extensão dos efeitos aos outros acusados Apelação provida. A posse de sementes de maconha não se caracteriza como conduta típica, percebendo-se, numa melhor hipótese, tão-somente atos preparatórios, estes não passíveis de punição pelo ordenamento pátrio. Apelação provida.” Caso ainda tenha sido intimado e tenha qualquer dúvida, pode enviar perguntas para os consultores jurídicos pelos fórum do Growroom ou em caso de emergência envie email para sos@growroom.net . Por Sano, Direito da Cannabis

sexta-feira, 5 de abril de 2013

PARECER IAB PL INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA 7663/2010

Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) Ref. Lei nº 7.663, de 2010, e de seus apensos, PLs nos 7.665/10, 440/2011; 1.144/2011, 1.575/2011, 1.693/2011, 1.905/2011, 1.931/2011, 2.372/2011, 2.600/2011, 2.922/2011, 2.930/2011, 3.167/2012, 3.365/2012, 3.450/2012, nos termos do Substitutivo. Consócio Fernando Maximo de Almeida Pizarro Drummond Matéria: Lei 11343/2006 refente a drogas ilícitas André Magalhães Barros Ementa: Indicação do consócio Fernando Máximo de Almeida Pizarro Drumond referente ao Projeto de Lei 7663/2010 de autoria do Deputado Osmar Terra, que, ao contrário da tendência mundial e dos paradigmas atuais da ciência, aumenta a pena mínima do tráfico de drogas ilícitas, generaliza a internação involuntária de dependentes de drogas tornadas ilícitas e mantém a criminalização de seu consumo. Trata-se de proposta de legislação de exceção incompatível com o Estado Democrático de Direito. A denominação do capítulo IV do projeto de lei é emblemática: "Do Sistema Nacional de Informação Sobre Drogas". A proposta vem ressuscitar e, ainda por cima, com o mesmo nome, o espírito do SNI. Isto justamente no momento em que a Comissão da Verdade luta para contar a história recente do país e as atrocidades cometidas durante a ditatura militar. Na proposta, é instituído um aparato de fiscalização, cadastro e controle dos usuário de drogas para o país. Através de uma rede nacional, centralizada hierarquicamente e coordenada pela União, objetiva-se criar sistemas estaduais e municipais integrados, sob a fiscalização de um poder central, ferindo a autonomia dos entes federados. À União compete elaborar o Plano Nacional de Políticas Sobre Drogas, instituindo e mantendo um Sistema Nacional de Informação, com prestação de assistência técnica e suplementação financeira aos Estados, Distrito Federal e aos Municiípios. Cabe destacar o parágrafo único do artigo 16 do capítulo IV: “CAPÍTULO IV Do Sistema Nacional de Informação Sobre Drogas Art 16. ........ ........................................... Parágrafo único . As instituições de ensino deverão fazer o preenchimento da ficha de notificação, suspeita ou confirmação de uso e dependência de drogas e substâncias psicoativas ilegais para fins de registro, estudo de caso e adoção de medidas legais. (NR)” Como se não bastasse um sistema centralizado na União, suas diretrizes políticas, determinações e métodos já estão traçados no projeto de lei. Cabe destacar que seu artigo 8º obriga os órgãos educacionais a se transformarem em pequenos tribunais de exceção, e seus agentes, em informantes deste novo SNI: “SEÇÃO V Das Diretrizes quanto à Educação Art 8º - K É obrigatório que os agentes públicos ou privados observem as seguintes diretrizes na elaboração e na execução dos planos de políticas sobre drogas na educação: I – promover que os regimentos escolares e os regimentos internos das entidades de atendimento definam as ações preventivas, as medidas disciplinares e as responsabilidades dos que atuarem de forma direta ou indireta, por ação ou omissão na ocorrência de uso e dependência de drogas; II – habilitar os professores a identificarem os indicadores relativos à ingestão abusiva de álcool e à dependência de drogas e dar o devido encaminhamento nos casos previstos” Na base desse aparato de informação e controle, é importante registrar a obrigatória parceria com instituições religiosas, estabelecida no artigo 8º-J, inciso IV, que claramente afronta o artigo 19, I, da Constituição Federal: “Art 8º-J - É obrigatório que os agentes públicos ou privados observem as seguintes diretrizes na elaboração e na execução dos planos de políticas sobre drogas na atenção à saúde do usuário ou dependente de drogas: …............................... IV – fomentar as parcerias com instituições religiosas, associações e organizações não-governamentais na abordagem das questões do abuso de drogas; …...............................” A proposta prevê, ainda, a criação de Conselhos Nacional, Estadual e Distrital e Municipais formados por, respectivamente, 20, 16 (estaduais e distrital) e 10 membros. Todos serão remunerados e constará da respectiva lei orçamentária a previsão dos recursos necessários ao pleno funcionamento do Conselho, tudo previsto no artigo 8º-I. O capítulo IV estabelece que o desrespeito, mesmo que parcial, e o não cumprimeto integral das diretrizes e determinações do projeto, sujeitam, sem prejuízo da responsabilidade civil e criminal, bem como da Lei de Improbidade Administrativa, os gestores, operadores e entidades governamentais, ou não, à advertência, afastamento de dirigentes, fechamento de unidade, interdição de programas, suspensão e cassação de funcionamento. Justificados pelo discurso do medo e do perigo da guerra, os métodos de delação, informação, provas secretas e punição, em sistema centralizado na União, eram políticas de Estado da ditadura militar aplicados contra os “subversivos”. Esse projeto de lei possui as mesmas características, voltadas contra os estigmatizados “drogados”. A substituição do título II da Lei 11343/2006 “Do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas” pelo “Da Articulação Federativa para o Enfrentamento às Drogas, da Rede e do Sistema Nacionais de Políticas sobre Drogas” demonstra claramente seu novo método: o “enfrentamento”. No caso em tela, o conceito de enfrentamento remete à política da “guerra às drogas”, cujo evidente fracasso o Rio de Janeiro vem testemunhando, ao situar-se entre as cidades do mundo onde mais morrem jovens, negros e pobres por arma de fogo. Como diz o próprio nome, essa política busca transformar uma questão pertencente à esfera da saúde pública em guerra ou, em outras palavras, articulação federativa de enfrentamento aos estigmatizados “drogados”. Segundo o projeto de lei, o único tratamento oferecido pela internação é a “abstinência”. Entretanto, em documentos públicos, a própria Prefeitura do Rio de Janeiro já admite a ineficácia desse tratamento em mais de 70% dos casos. Assim, vão de encontro às eficazes políticas de redução de danos adotadas tanto pelo nosso Ministério da Saúde quanto por diversos países do mundo. Cabe destacar que parecer do Ministério da Saúde considerou a compreensão do projeto em tela a respeito do problema das drogas equivocada. Recordamos que a Lei 10.216/01 (conhecida como a Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira) dispõe sobre a “proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental no país”. Fruto de amplo debate na sociedade e da luta antimanicomial, esta lei foi considerada um avanço, à medida que deixou de preconizar o modelo asilar, por este ser violador de direitos humanos e ineficaz sob o ponto de vista clínico, para constituir, ao contrário, um modelo de promoção da cidadania e autonomia do usuário, com resultados significativos para a saúde (Área Técnica de Saúde Mental, Álcool e outras drogas DAPES/SAS/MS). Há algumas décadas, no Brasil e no mundo, a cultura da violência institucional gratuita e desumana apresentada como tratamento veio sendo desmascarada e deslegitimada. No entanto, ainda se faz necessário resistir aos retrocessos e promover ações para desmontar as práticas de exclusão voltadas para grupos sociais marginalizados – dependentes de drogas, idosos, negros, imigrantes, ciganos, jovens e desempregados (Amarante, P. Saúde Mental, Formação e Crítica. 2008). O artigo 28 da Lei 11343/2006, que significou um grande avanço, com o fim da pena privativa de liberdade para os consumidores de drogas, está ameaçado de sofrer grave retrocesso. Exatamente agora que se aproxima o julgamento do Recurso Extraordinário 635659, onde o Supremo Tribunal Federal deve acompanhar decisões de demais Cortes Constitucionais da América do Sul e julgar inconstitucional a criminalização do próprio artigo 28 da Lei 11343/2006. O STF já decidiu, ao final de 2011, em Plenário Virtual, que existe repercussão geral da questão constitucional suscitada no RE 635659, pois atinge grande número de interessados e o tema é de manifesta relevância social e jurídica. O referido projeto, ao contrário, visa criar uma espécie de prisão domiciliar para os estigmatizados "drogados" e lhes proibir a diversão por até 24 meses. Invade o poder discricionário do juiz sentenciante em dispositivos teratológicos, ao determina o que deve constar na sentença judicial, chegando ao ponto de atribuir ao juiz a tarefa, impossível, de acompanhar o atendimento individualizado dos usuários de droga: “Art. 28........................................................ § 3º As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo de 6 (seis) a 12 (doze) meses. § 4º Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo de 12 (doze) a 24 (vinte e quatro) meses. .......................................................................................... § 6º ........................................................ III – restrição de direitos relativos à frequência a determinados lugares ou imposição ao cumprimento de horários. .................................................................................... § 8º Em qualquer das hipóteses previstas nos incisos do caput deste artigo, o Poder Público está obrigado a acompanhar o desenvolvimento, registrar o cumprimento e avaliar o progresso do usuário ou dependente de drogas nas atividades atribuídas,de acordo com o seguinte: I –a sentença judicial designará um responsável por acompanhar o desenvolvimento das atividades pelo usuário ou dependente de drogas; II –o juiz competente será informado pelo responsável pelo plano de atendimento individual acerca da avaliação do progresso realizado no cumprimento das atividades do programa, com sugestões sobre ações futuras.”(NR) Um dos aspectos mais terríveis do projeto é a internação involuntária, assim definida no artigo 23-A, inciso II, letra “b”: “Art. 23-A …................................. …................................................ II - ….......................................... b) internação involuntária: aquela que se dá, sem o consentimento do usuário,a pedido de familiar ou, na absoluta falta deste, de servidor público que constate a existência de motivos que justifiquem a medida; …................................................. § 2º A internação involuntária: I –a internação involuntária deve ser precedida da elaboração de documento que formalize a solicitação do familiar ou, na absoluta falta deste,de servidor público e deve conter a exposição dos motivos que a justifica. II–é realizada após a formalização da decisão do médico responsável; III–perdurará apenas pelo tempo necessário à desintoxicação, dentro do período máximo de 180(cento e oitenta) dias, tendo seu término determinado pelo médico responsável; IV –o solicitante da internaçãopode requerer ao médico a interrupção do tratamento.” Trata-se, na realidade, de internação compulsória, criando o projeto uma nova espécie da extrema medida de segurança de internação. No entanto, esta medida será decidida por apenas um médico, que não precisa ser perito judicial e nem mesmo psiquiatra. Hoje, num processo judicial comum, para ser aplicada medida de segurança, é necessário um Laudo de Exame de Sanidade Mental, com quesitos da acusação e da defesa, assinado por dois peritos psiquiatras. Medida esta que só pode ser aplicada para alguém que tenha praticado um crime com pena privativa de liberdade. Ocorre que não existe mais a pena privativa de liberdade para o crime de consumo de drogas no artigo 28 da Lei 11343/2006, nem tampouco no projeto em tela. Deste modo, é ferida a mais importante garantia individual, o princípio da reserva legal, insculpido nos artigos 5, XXXIX, da Constituição Federal e 1º do Código Penal. Para uma pessoa sofrer medida de segurança, primeiro deve ser analisado se ela praticou um fato típico, ilícito, culpável, excluindo neste momento da análise a inimputabilidade, e punível. Como não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal, ninguém pode ser internado compulsoriamente por conduta onde não é mais prevista a pena privativa de liberdade. Por fim, a teratologia do projeto de lei chegou ao extremo na questão da sanção por tráfico de drogas. A vedação à conversão das penas privativa de liberdade em restritivas de direitos no caso de tráfico de drogas foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal, em decisão definitiva no Habeas Corpus nº 97256/RS. Logo, tal proibição foi riscada do parágrafo 4º do artigo 33 da Lei 11343/2006 pelo Senado Federal, através da Resolução nº 5, de 2012. Portanto, um réu primário, de bons antecedentes, que não se dedica a atividades criminosas nem integra organização criminosa, pode ter sua pena reduzida de um sexto a dois terços. Já que a pena mínima para o tráfico é de 5 anos, neste caso, o juiz deve aplicar a causa de diminuição e a pena, que não ultrapassará 4 anos, será convertida em restritiva de direitos. Observa-se que o projeto aumenta a pena mínima visando cortar esses avanços e amordaçar o juiz sentenciante. Quer impedir, no caso concreto, que o juiz se movimente com discricionariedade no momento da dosimetria da pena e substitua a pena privativa de liberdade pela restritiva de direitos. A irracionalidade da proposta é tamanha que estabelece uma pena mínima de 8 anos para o tráfico, superior à pena mínima de 6 anos para homicídio doloso. A principal razão da superlotação das cadeias brasileiras reside na prisão de pequenos e ocasionais traficantes, bem como de consumidores condenados como traficantes. Isto, mesmo com a pena mínima vigente de 5 anos de reclusão. Chega a ser difícil imaginar uma superlotação ainda maior caso a pena mínima fosse de 8 anos! O projeto em tela é uma catástrofe anunciada das nossas já desumanas penitenciárias. Desta forma, o projeto de lei nº 7.663, de 2010, seus apensos, PLs nos 7.665/10, 440/2011; 1.144/2011, 1.575/2011, 1.693/2011, 1.905/2011, 1.931/2011, 2.372/2011, 2.600/2011, 2.922/2011, 2.930/2011, 3.167/2012, 3.365/2012, 3.450/2012, e Substitutivo, devem ser rejeitados por absoluta inconstitucionalidade e incompatibilidade com o Estado Democrático de Direito. Rio de Janeiro, 1 de abril de 2013 ANDRÉ MAGALHÃES BARROS

Adv.André Barros